|
I
Na velocidade das horas eu tremo. Pois há um tempo onde minha asa poda-se a um vento de que já não sei intento ou direção
Onde já não me sei mais do que em meu olho de criança
E neste tempo onde somos muito mais do que um quando neste tempo eu choro a cada pedaço de corpo - gente ou polvo em mim olho e não me entendo
A cada pedaço de corpo ou humanidade nascendo eu choro. Sabendo o mundo resumido à luta, fuga e ao absurdo nos rumos do astrolábio de um louco que um dia descobriu-se manso e plenilúnico nas ruas da cidade
II
Na velocidade das horas e vertiginado, Cristina no enlace de suas coxas eu também sei: - Há um outro tempo onde eu me construo seguidamente enquanto em minhas mãos vejo romper-lhe um som de gozo doendo desmesurado em nossa cama sem tamanhos
E destes tempos que estilhaçamos a cada tempo novo onde revezados a dor e o choro de intactos sermos ainda sábios nada sobra, nada
Tudo devoramos
E neste renovado tempo quando, mármore e mistério você dorme em seus segredos Eu sorvo o desvario e o medo de ver-lhe longe, linda linda e alvíssima
III
Crescem no fundo da noite espigas de cristal
Crescem para esta dança das horas em que nos vemos. Ora plácidos ora no enlevo de contemplar a vida de cria-la em meus abraços ou nos seus. De cria-la nos afagos em que nos damos ventre e solo à uma opalescente essência inderramada até a derradeira hora
IV
Amo você mesmo quando em tudo eu me vejo partindo na desabalada batida desta bomba de sons e de sonhos que me bate no desvairo e no peito ronda diária em que busco pedaços toscos de meu próprio rosto
Meu rosto, meu rosto ora impúbere ora restos de uma ouvida antiguidade
Ruas da cidade ruas da cidade.
V
Nas ruas da cidade tudo devoramos, Cristina. Se é preciso na construção da humanidade nossa tudo devoramos para a velha ave a ser parida uma vez ainda e você sabe a forma rediviva no arco de nosso ventre indistinto
Quando na noite o meu ventre se curva sobre o seu e nossas bocas se colam, e se derramam língua e língua sem a intempérie sequer de qualquer palavra
Na velocidade destas horas rutiladas no sangue que é meu e seu eu amo você.
|