BannerTotal04

 

x

Amar Cristina

I

Na velocidade das horas
eu tremo.
Pois há um tempo
onde minha asa poda-se a um vento
de que já não sei intento
ou direção

Onde já não me sei mais
do que em meu olho de criança

E neste tempo
onde somos muito mais
do que um quando
neste tempo eu choro
a cada pedaço de corpo
- gente ou polvo em mim
olho e não me entendo

A cada pedaço de corpo
ou humanidade nascendo
eu choro.
Sabendo o mundo resumido
à luta, fuga e ao absurdo
nos rumos do astrolábio de um louco
que um dia descobriu-se manso
e plenilúnico
nas ruas da cidade

II

Na velocidade das horas
e vertiginado, Cristina
no enlace de suas coxas
eu também sei:
- Há um outro tempo
onde eu me construo
seguidamente
enquanto em minhas mãos
vejo romper-lhe um som de gozo
doendo desmesurado
em nossa cama sem tamanhos

E destes tempos
que estilhaçamos a cada tempo novo
onde revezados a dor e o choro
de intactos
sermos ainda sábios
nada sobra, nada

Tudo devoramos

E neste renovado tempo
quando, mármore e mistério
você dorme em seus segredos
Eu sorvo o desvario e o medo
de ver-lhe longe, linda
linda
e alvíssima

III

Crescem no fundo da noite
espigas de cristal

Crescem para esta dança das horas
em que nos vemos.
Ora plácidos
ora no enlevo de contemplar a vida
de cria-la em meus abraços
ou nos seus.
De cria-la
nos afagos em que nos damos
ventre e solo
à uma opalescente essência
inderramada até a derradeira hora

IV

Amo você
mesmo quando em tudo eu me vejo partindo
na desabalada batida
desta bomba de sons e de sonhos
que me bate no desvairo e no peito
ronda diária em que busco
pedaços toscos de meu próprio rosto

Meu rosto, meu rosto
ora impúbere
ora restos de uma ouvida antiguidade

Ruas da cidade
ruas da cidade.

V

Nas ruas da cidade
tudo devoramos, Cristina.
Se é preciso
na construção da humanidade nossa
tudo devoramos para a velha ave
a ser parida uma vez ainda
e você sabe a forma
rediviva no arco de nosso ventre indistinto

Quando na noite
o meu ventre se curva sobre o seu
e nossas bocas se colam, e se derramam
língua e língua
sem a intempérie sequer de qualquer palavra

Na velocidade destas horas rutiladas
no sangue que é meu e seu
eu amo você.


 

O-fino-dos-Poemas


. Descendo a Praça
. Saudades da Pafúncia
 . Mênora
.
A mulher improvável
. Terência
. Brincadeiras
. Terras
. Mar tão grande
. Mendiga Bacana
. O Fio Elétrico
. Silente Mar
. Descendo a Praça
. Tua Mão
. O Despertador
. Quebra Cabeças
. A Febre
. Rimbaud me visita
. Eu Traidor
. O Teu Fevereiro
. O Dia dos Pássaros
. Amar Cristina
. Sabiá Cansado
. Soneto de Ivana
. Beirafim
. Reflexos em um Cálice de Vinho
. Nauta
. Eu soube de Você
. O Quadro
. Micro Luyas
. Carta que escreve Nosferatu a Rusalii