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Muitos pintores criticam o uso de fotos de referência por que, segundo eles, o uso delas implica em perda de criatividade e espontaneidade no resultado final. De fato, temos visto trabalhos onde, de maneira patente, o autor fez uma retroprojeção sobre a tela, e meramente decalcou a fotografia. É engraçado como é visível quando isto acontece - É como se fosse um texto sem assinatura, algo impessoal, meramente um trabalho de artesanato, e pior, na maioria das vezes, muito mal feito... O decalque chega a tal ponto que o “artista” copia inclusive as cores, gerando o que eu chamo de “palheta kodak”... Mas, costumeiramente, uso fotos para meus trabalhos, principalmente porque vivo em 2001, uso máquinas de fotografia digital, e disponho de um computador para trabalhar, recortar, inverter, seja o que for que eu deseje fazer nas fotos que tiro. A grande diferença é que eu uso a foto como referência, parando com a tecnologia na folha impressa que a minha HP 840 gera. A partir daí, é um trabalho de observação – da foto – mas de observação. Não deixei até hoje de trabalhar “on plein aire”, ou seja, ao ar livre, pintando diretamente da paisagem, mas isto tem muito mais a ver com a curtição de viajar, e de estar ao ar livre, pintando. Por outro lado, a pressa de pintar, antes que o sol escape daquela posição das 7 horas da manhã, quando as sombras se estendem e as sombras ainda não estão chapadas, faz com que o resultado final fique com aquele ar natural e espontâneo. Mas pintar ao ar livre faz parte de outro artigo...
Escolhendo a máquina de retrato
Nem todos têm acesso a uma câmera digital, e, portanto, vamos começar pelas mais comuns que são as que se utilizam de filmes. Use de preferência uma máquina do tipo reflex, que são aquelas em que o visor nos permite ver através da lente, dando uma imagem real do que vai sair na fotografia. Real, no que se refere à enquadramento e profundidade, porque a cor e o esquema tonal saem completamente diferentes, e com uma qualidade decepcionante. Se você não tem uma dessas, procure no jornal, ou nestes leilões da internet, e provavelmente vai consegui-la por menos de 200 reais. Preocupe-se com a lente, e compre alguma com uma lente de 50mm, ou, melhor ainda, com uma zoom 35/70 mm. Eu tenho uma Zenit, que não tem muito prestígio no mercado, mas com uma zoom 35/70 e uma 70/200 obtive sempre excelentes resultados. Quanto ao filme, use, de preferência, o de 100 asas, que possui uma granulação mais fina, e permite maiores ampliações. A partir de 2000, comecei a me utilizar de máquinas digitais, com excelentes resultados. Tive a Mavica 75, a 95, e hoje, ainda trabalhando com máquinas da Sony, tenho uma DSC S75, ótima, e com um preço de R$2.400,00, se comprada nova. Mas, de novo, procure compra-la usada, ou na Internet, e vai encontra-la, provavelmente, por um preço muito melhor. Existem outras excelentes marcas no mercado, mas não deixe nunca de comprar a sua máquina com zoom, o que vai lhe facilitar em muito na hora de fotografar. A longo prazo, e se você fotografar constantemente, esta máquina vai sair muito mais barato do que uma máquina convencional! Não use flash nunca! O seu uso vai retirar a profundidade da foto, além de sumir com todas aquelas sombras tão boas de pintar!
Fazendo um levantamento fotográfico com modelo vivo
O que sempre me aborreceu, nas vezes em que utilizei modelos vivos foi, em primeiro lugar, a necessidade de manter o modelo parado durante longos períodos, coisa fácil quando se trata de um modelo profissional, mas quase impossível quando você está tentando convencer a sua filha, ou sua mulher, de ficarem paradas só mais um pouquinho... No caso da modelo profissional, usualmente para o nu artístico, existe sempre a questão do custo (aqui em Brasília, em torno de 30 reais a hora), e da dificuldade de se obter a mesma luz e a mesma posição nas sessões seguintes. A utilização da fotografia resolveu completamente a questão. É claro que no caso do nu artístico, continuo dependendo de modelos profissionais, mas o resultado de uma sessão de fotos, com luzes e fundos diversos, mudando de poses quantas vezes for necessário, gera um material rico para ser processado depois. Mas, quando estamos falando de fotos que não envolvem este aspecto, fica fácil usar todo mundo da casa como modelo! A iluminação é importante para a figura humana. Tenha a consciência das diversas fontes de luz que atingem o modelo. Pintar a partir de uma foto com luz difusa é mais complexo do que pintar com uma fonte direta. Gosto de usar luz artificial para iluminar, já que ela provoca sombras mais definidas (não a luz de teto, mas a gerada por um abajur à beira de uma poltrona, por exemplo). Algumas vezes me utilizo de alguém, eleito como iluminador, para segurar um spot posicionando as sombras de algum jeito mais interessante. Abuse das fotos, mesmo que tenha que pagar mais pela revelação! Remontar um “set” para uma sessão de fotos pode ser problemático, e lhe custar mais do que iria gastar nas fotos extra.
Levantamento fotográfico de paisagens
Antes de mais nada, procure tirar fotos até as 10 horas da manhã, ou a partir das quatro da tarde. As fotos tiradas com o sol a pino são “duras”, porque muito contrastadas. A nuance das sombras é perdida, além de serem chapadas e pequenas. Além disto há sempre a possibilidade de uma iluminação diferenciada se você fotografa ao amanhecer ou ao final da tarde. Aproxime-se ao máximo do cenário a ser fotografado. Isto evitará o uso de teles (lentes acima de 70mm) o que achata tudo, retirando a profundidade. Se for possível se aproximar até uma distância conveniente, fotografe com lentes pequenas, e se preocupe com a ampliação e enquadramento posteriormente. É claro que algumas vezes e propositadamente, fotografo com teles, mas sempre com o objetivo de alterar a profundidade, ou em casos extremos em que o enquadramento que me interessa está tão longe que não há outra forma de aproximar, mesmo pagando o preço da alteração da perspectiva. Fotografe de diferentes ângulos. Algumas vezes descobri que se me movesse um pouco mais para a direita ou esquerda teria um enquadramento muito melhor. Assim, “queimar” algumas fotos a mais poderá lhe evitar uma volta desnecessária.
Os cuidados com composição
Em todos os casos, não se esqueça que você está criando um embrião. Suas formas irão determinar o sucesso de seu trabalho final. Assim, utilize-se do que sabe em matéria de composição! Preocupe-se com a questão de centro de interesse, com o equilíbrio, e com os cantos. Mais uma dica: tente sempre fazer com que o seu enquadramento coloque ao fundo o que é mais escuro, e portanto de cores mais frias. Se o seu centro de interesse estiver mais escuro que o fundo, o que vai acontecer é que este vai saltar para frente, e roubar a cena! Já perdi algumas boas chances por ignorar o efeito que o descaso com esta regra poderia me causar.
Processando as fotos no computador
Um scanner é uma coisa muito barata (um novo custa entre 150 e 200 reais) de maneira que vou assumir que se você trabalha com máquinas tradicionais, e de toda forma consegue digitaliza-las. No entanto, houve um tempo em que eu não tinha como fazer isto, e o jeito era mandar ampliar no laboratório e fazer o clipping (o enquadramento) recortando a foto e usando-a deste jeito. Mas vamos considerar que consigamos inserir o nosso trabalho no computador. Para este trabalho no computador, podemos nos valer de dois tipos de programas: O primeiro é do tipo que lhe permite visualizar o diretório de fotos, e escolher as que melhor se aproximam de suas intenções. O segundo pode ser algo do tipo laboratório digital, como o Photoshop, que lhe permita alterar as fotos escolhidas. Normalmente após escolher a foto com que desejo trabalhar, começo trazendo-a para o meu “laboratório”, e otimizando a questão de luminosidade e contraste. Talvez em função das características da Mavica, eu sempre tenha que aumentar um pouco o contraste, compensando com o aumento da luminosidade. A seguir, é dar vazão à criatividade! Você pode alterar o equilíbrio de cores, aumentando por exemplo o amarelo – o que, no meu caso, é sempre uma opção para aproximar o resultado das cores de minha palheta. Pode eliminar objetos indesejados, pode troca-los de lugar, e assim em diante. Só não deve inserir objetos recortados de outras fotos, o que pode criar um problema sério de iluminação – alguém numa paisagem, por exemplo, iluminado pelo lado errado... Não se esquecendo também da ótima possibilidade da deformação da foto, recurso que já utilizei em alguns quadros. O que de importante mais faço, no entanto, é o enquadramento, já nas proporções da tela que vou utilizar. É o recurso do “crop”, do recorte a ser feito na foto, e que vai lhe dar a sua última chance de intervir na composição.
E finalmente...
Agora é que começa o melhor: imprima o resultado do trabalho, coloque a folha em algo como um suporte para partituras musicais, e comece a pintar!
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