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Eis que Hermínia andava pela Estrada dos Lívidos(1) , por volta de meio-dia, quando viu sentado em uma pedra um homem de seus 35 anos, fazendo anotações sem conta em um pequeno bloco.. Em torno da figura a luz se esvanecia, parecendo um lusco-fusco em um raio talvez de um metro, o que não causava surpresa, já que Hermínia tinha visto inúmeras vezes o fenômeno nesta estrada, e isto em todos os andantes que seguiam em direção à Olhos d’Água. - Bom dia! Era impossível Hermínia não falar com qualquer um que estivesse próximo. - ‘Dia! Resmungou a figura, olhando-a sem muita curiosidade. - Eu sou Hermínia. Como é o seu nome? - Sou Maiakovski. Wladimir. - O poeta? O russo que morreu em 1930? - Quem dera... Estou morrendo ainda, aos soluços, e parece que esta coisa não termina nunca! - Mas é só chegar a Olhos, que acabou a caminhada... - Não chego nunca. Estou sempre me distraindo e parando para escrever... Escrevo há mais de setenta anos. - Mas como pode? - Eu sei como. Quem me dera eu tivesse queimado todos os meus livros e tivesse me apagado da memória de todos antes de morrer! Toda vez que alguém pensa em mim, ou lê um de meus poemas, um soluço de vida me atinge, e ando alguns metros para trás, ou me perco, ou me distraio, ou durmo. Esta síndrome da Fadinha(2) atinge a todos que morreram... Se lembrarem pouco de você, não atrapalha muito, mas quanto mais permanece o seu nome no mundo dos iludidos(3), mais você fica agarrado a esta estrada. O outro dia passei por Van Gogh, que está andando desde 1890. Ele estava possesso, pedindo que todos levassem os seus quadros para o túmulo, que os queimassem, mas que o libertassem. Ele tem razão – A glória não tem a menor importância, a não ser quando você está vivo e pode com o dinheiro e o prestígio comprar o vinho e as mulheres. Acho que qualquer dia desses, vou passar por Aristóteles ou qualquer outro idiota que resolveu tresandar regras para o mundo! Teorema de Aristóteles! Olha o cara! Todo menino que for estudar geometria, lembra do nome dele, e pumba! Dois passos para trás... Quando começaram com o revisionismo na União Soviética, esta estrada ficou uma zorra. Era só reescreverem a história, e quem estava a sua frente passava para trás e quem estava atrás de repente estava lhe passando. Uma bagunça! - Eu estou caminhando na direção contrária... - O que? Você ficou maluca? Estou reparando que não tem esta sombra que anda comigo, e que de certa forma é até confortável... Você não morreu? Porque é que você é a única pessoa que está andando na direção errada? - Não é a direção errada! Apenas ninguém pensou em andar para lá! Bem, e eu também nunca morri, e nem nasci, né? Só que agora quero ver como é por lá... - Maluca mesmo! E, revigorado, e provavelmente por que ninguém pensou nele nos últimos minutos, levantou e se foi, mas já parando um pouco a frente, distraído com mais uma borboleta azul.
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