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A maior parte de minha vida como artista plástico foi passada longe das cores, diante de uma suposta e absoluta incapacidade de tratá-las. Nos idos de 70 fiz algumas tentativas com cor e, salvo quando usando uma ou duas cores puras, esponjadas em cima de algum desenho, tive algum resultado, que eu chamaria, no máximo, de decorativo. Todas as outras tentativas foram um fracasso, e passei a olhar a cor como algo inatingível. Assim, permaneci no desenho, e na caricatura, de fácil domínio para mim, e sem causar nenhuma grande frustração... Na década de 90, no entanto, comecei a sentir novamente a velha necessidade da cor e, preparado para as inevitáveis frustrações, voltei à elas... A primeira atitude foi a de comprar todas as cores de tinta acrílica que consegui encontrar. É claro que foi uma lambância... - Tentei a técnica do branco, que é a de só utilizar qualquer cor com o branco misturado. O resultado continuou sendo o pior possível, ficando os estudos com aquele aspecto de “engessado”, e totalmente sem vida. - Tentei a técnica de usar sempre uma cor misturada à todas as outras que eu viesse a utilizar (me disseram que muitos artistas se valiam deste recurso, de preferência usando sombra, ou terra de siena), e de novo, o resultado foi frustrante, com uma uniformidade “chata” em uma pintura sem a menor graça. Aí eu dei talvez o primeiro passo eficiente no caminho, que foi o de começar a pintar do real. “Pintar do real” quer dizer simplesmente uma pintura de observação, de naturezas mortas, de paisagem, ou seja do que for. E pintar assim lhe leva a tentar reproduzir da melhor maneira possível a cor que, de fato, você está vendo. O azul nunca é o do tubo, e é um exercício constante tentar encontrar o exato azul do céu ou de algum objeto que você esteja vendo. E nisto você começa o exercício da mistura de cores – Aliás eu, no caso do azul do céu, sempre trabalho com azul cerúleo misturado com branco e algo de sombra queimado. Mesmo que você ainda não seja bom de desenho, ou o seu destino seja o de um pintor abstrato, este exercício é excelente. Não se preocupe com a delimitação das formas, ou a precisão no seu traçado. O importante é que você tente reproduzir a impressão geral do que está vendo. Não lhe aconselho o uso de fotos, porque elas tem uma palheta própria. Eu chamaria de palheta Kodak, ou Fuji, como queira, mas isto pode lhe induzir a uma palheta de cores que não será naturalmente a sua. Usar fotos, só depois que você descobrir que cores são as suas mais amigas, que se dão melhor com suas misturas, com o seu jeito de pintar. Ou seja, quando você tiver de fato a sua própria palheta. No meu caso, terminei chegando a uma palheta com pouquíssimas cores: Azul Cerúleo, Amarelo Ocre, Terra de Siena Queimada, Sombra queimada, Branco e Preto. Quando quero mais intensidade, uso um pouco de Amarelo Cadmium e de Vermelho Cadmium. Em certos casos eles resolvem a questão do matiz (“levantar” as cores), ou da luz em alguns lugares. É claro, que sendo um naturalista (ou impressionista, sei lá), a minha palheta está mais apropriada para os meus fins. A sua, provavelmente, vai atender às suas próprias necessidades... Ah, e não esqueça... Pintura, como qualquer outro ramo, é trabalho, persistência, e administração de suas frustrações. Você só vai chegar lá, se quiser muito mesmo, e depois de muito exercício, e telas jogadas fora. Mas se você persistir, aposto um cento como vai conseguir...
Pós-Scriptum Três anos depois de escrever este artigo, vejo que a minha palheta já não é mais a mesma, o que é óbvio, dado às muitas e muitas horas dedicadas às cores e a seu uso. O artigo continua perfeito e, para mim, continua sendo o caminho válido para quem quer se tornar íntimo delas. Hoje já percorro com mais naturalidade o espectro de cores, valendo-me muito mais do que sai direto do tubo, como um violeta, por exemplo, que é impossível se reproduzir misturando azul com vermelho. O mesmo vale para alguns amarelos, e quando a necessidade se impõe, o uso de alguns verdes mais brilhantes. Não esqueço nunca, no entanto, de Rembrandt, que dizia que o segredo da pintura estava na borra, referindo-se ao miolo da palheta, onde todas as cores estão misturadas naquela aparente sujeira. É verdade. A distância entre o claro e escuro, entre o quente e o frio numa pintura é muito menor do que parece. Quantas vezes já me espantei, vendo que um aparente “branco” de uma pincelada num quadro (tive esta experiência estudando um auto retrato do Lucian Freud) não era senão um marrom claro. E que, como disse, claros e escuros na palheta estavam muito mais próximos do que o seu resultado na tela. E termino novamente dizendo que nada substitui as horas usadas misturando e usando as suas tintas.
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