Lusco-Fusco

Lusco-fusco

- Cara, estou numa gelada!
- Gelada?
- É! Eu tive uma idéia fantástica para um crônica ontem, dormi, e agora não me lembro de mais nada!
- E porque isto é uma gelada?
- Porque era ótima, pombas!
- Se você não se lembra, como é que poderia ser ótima?
- Eu sei que era ótima! Eu sei, eu me lembro!
- Então, você se lembra da crônica?
- Não, não me lembro!
- Como é que você sabe, então, que era boa?
- A sensação, cara, a sensação!
- Sem querer dar uma de terapeuta, como é que era essa sensação?
- Uma sensação quente, uma sensação de euforia...
- Só?
- Acho que só...
- E se você, meramente, imaginou isto?
- Mas me lembro. Eu me lembro da primeira idéia, da outra crônica. Mas esta não quero escrever, por que me angustia.
- E se você tentar escrever, e ver o que acontece? Quem sabe, pode vir a lembrança da outra...
- É, pode ser. Mas daí vem um cinzento que me impede de pensar qualquer coisa... Fico tentando, tentando, para ver se me lembro.
- Sei não... Crônica não tem que ser curtida, não tem que ser engraçada, não tem que ser nada disso. Como é que ela poderia ser?
- Envolve um cara, tenho certeza. Aliás, as minhas crônicas sempre começam como se fosse eu mesmo em alguma situação. Isto tudo está uma trapalhada, porque, no meio desta estória toda, eu tive sonhos abissais, de profundezas e principícios, e daí, fica tudo atrapalhado!
- Cara, que buraco!
- É, acho que me suicido...
- Por uma crônica...
- É, por uma crônica. Por todas as crônicas, por todas as poesias que perdi neste lusco-fusco entre a consciência e o sono, onde tudo que é maravilhoso surge, e depois se esvanece, ficando só a sensação, só a lembrança de algo indefinido, tênue, quase inexistente...
- Você está é deprimido. Aliás, você é um deprimido, um tenso existencial.
- Já por duas vezes escutei árias quando estava neste estado e eram lindas e depois não me lembrei de mais nada, a não ser de tê-las ouvido... Será que não posso existir nessa zona entre a consciência e o sono? Será que não posso ser um espírito que vagueia livre pelo paraíso, enquanto o sono e meus sonhos terríveis não vem me encontrar?
- Será que você chama assim ao lugar em que estamos agora?
- Hem, que estória é esta?
- Você já me viu antes? Sabe quem eu sou?
- Não tenho a certeza, mas parece que já o conheço há muito tempo. Você não é o... Não me lembro! Aliás, parece que quando tento lhe olhar, você se desvanece, se torna num redemoinho de cores esmaecidas! Só lhe vejo quando não estou olhando para você... Só lhe sinto, quando não estou pensando em quem pode ser!
- No entanto, tem a certeza absoluta de que estamos aqui a conversar!
- Tenho, mas veja, começam a aparecer outras pessoas... Ouço algo. Quem são eles?
- São todos seus conhecidos. Sabe quem são?
- Acho que sim, mas ouça que ária linda estão a cantar...