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Maria, mulher de pescador. Não era Maria Bonita, nem Maria Ningúem. Era Maria, mulher do Stênio, pescador. Maria que ficava na janela vendo o chuá do mar, enquanto Stênio pescava, até o dia em que dava de aparecer. Gostosa, isso lá ela era! Pelo menos na boca do pessoal de Vila dos Perdidos, no litoral do Piauí. Cabocla esbranquiçada, daquelas filhas de pai ruço com mãe normal. Por isto se cuidava. Sol, só se tivesse que ser mesmo. Maria não tinha nada de burra, e por isso sabia ver o que a vida lhe mostrava. Não precisaria, aliás, de muita inteligência para entender - Ia ser aquela espera pelo Stênio, diazinho após diazinho, até ficar igual à outra Maria da Vila, a velha. A velha era o espelho de seus medos. - Já viu velho de beira do mar, ou do sertão, onde o sol bate até transformar o seu rosto na mesmíssima terra rachada de todas as secas? E os peitos? Tão roliços, empinadinhos! Tão gostosos de se tocar! Os da velha Maria só paravam quando a barriga os segurava, espremendo os bicos murchos em sua busca pela gravidade. Na janela da palhoça, se pensava Odete, Angélica, Adriana. Se pensava puta, freira, mulher do padeiro. Se pensava patroa rica em Terezina, onde fora uma só vez com o falecido Deusdério, seu pai, em busca de coisa melhor que, afinal, não encontrara. Da janela, o mar se transformava em planície verde, em milharal. Mas miragem não é coisa de durar muito, inda mais se não for no sertão. Logo o mar voltava a ser mar, com chuá e maresia. - Um dia, trouxeram o Stênio para casa. Mais morto que o pai Deusdério quando se esvaiu naquele mar de fedores. Ao menos, Stênio não fedia. Maria sentiu um nadíco de dor. Um nadíco só. Foi como se estivesse recebendo visita. Stênio tinha vindo, agora um desconhecido, lhe visitar. Ela nem precisou de preparar o defunto. Os amigos se ofereceram, com piedade da viúva que estava parecendo abestada. Puseram Stênio todo arrumadinho, esfriando no meio da cama. Tal como uma visita, êle não ficou muito tempo. Os amigos, mais o pessoal da vila, deram de beber e de lembrar, e depois de contar mais uma vez a estória da rede que matou Stênio, o ajeitaram numa prancha e lá foram todos bota-lo onde a areia se encontrava com o manguezal. Lá, onde estavam os seus pais, e os pais de todo mundo, Stênio foi enterrado, tão quieto e apagado como fora toda a sua vida de vinte e cinco anos. Maria chorou um nadíco. Mas não deixou de reparar na velha Maria, como fazia sempre. Na volta, alguns lhe acompanharam. Na porta, se despediram e ela entrou, para chorar mais um nadíco. Fungou também, e ficou muito, mas muito tempo mesmo, se olhando no espelho, lembrando da outra Maria. Noite chegada, foi para fora, e na areia, se deu conta do tanto que detestava aquele mar e o seu chuá, do tanto que de tanto sal, nada pegava tempeiro, nem a comida, nem sua vida riscada direitinho nos traços de Maria velha dos Perdidos. Até ali, tinha vivido uma vida de Stênio, com Maria velha a espera-la nos cantos de seu espelho. Tinha vivido uma vida de vinte e um anos de nada. O bom Stênio se foi, e não fez a menor diferença. Dia seguinte, com uma trouxa nas costas, nem olhou para trás. Rumou para a estrada de asfalto. - Ia para o Sul. Querendo o que, não sabia, mas de trouxa e querência foi andando. Passou ao largo da vila. Tinha irmão e irmã, tinha tios ainda, tinha o povo todo. Mas sem nenhuma conta a acertar. Já, nem existiam. No asfalto, logo um caminhão foi parando. Maria de Stênio sabia o preço da passagem. Pagou. Teve direito à comida, banho e a muita estrada para o sul. Conversa, não quiz muito. O caminhoneiro também não existia, pelo menos enquanto não paravam, para que ela pagasse mais um trecho da viagem. Um dia, chegaram no Recife. Maria fez seu último pagamento, e pois-se a andar. Não era boba, você sabe. Noitinha chegada, trocou a única coisa que realmente tinha por dinheiro, e o dinheiro por comida e pensão. Como o que tinha não se acaba assim tão fácil, foi trocando todas as vêzes que precisava de dinheiro, sem muito pedir ou se perguntar. De manhã, passeava pelas praias. Ia olhando, ia aprendendo. À noite, ia para as ruas para ver e se entregar. Sem rancores, um nojinho às vezes, mas nada demais. Alguns, pouco lhe davam. Alguns queriam mais. Mas ela não. Todos eram Stênios, com ou sem espelhos em casa. Foi aprendendo. Trocou de jeitos, de maneiras. - Maria de Stênio foi aprendendo a escolher. Mudou-se para Boa Viagem. A esta altura, já tinha pego o jeito da cidade, aquele de se chegar mostrando pouco, sem parecer o que era e do que precisava. Ninguém podia negar a sua gostosura, na mistura estranha da pele clara com o meneio de cabocla, do cabelo curto e do rosto limpo, tudo isto em vestidinho simples de quem sabia comprar. Claro. Maria não ia escrever "puta" na testa, porque se não era um gênio, de burra já vimos que nada tinha. Maria, entendida, já sabia: - Alo, mister! du iú ispika portuguise? Nô? Mai nâime is Maria! Já agora, só gringo servia. Era o melhor, mesmo que mais panaca. Maria não mais se trocava só por dinheiro. - Investimentos, investimentos! Quer dizer, acho que esta palavra aí ela não conhecia, mas o seu sentido, sim. Nem sabia o que queria dizer "óbvio", mas não era este o seu jeito de se comportar: Primeiro, aproximação sutil. Depois, atrair o pescado. No fim, nem de rede era preciso, pois a lanterna acesa na noite fascinava a presa,e às vezes, era até possível tripudiar. Pois gringo é um bicho estranho. Ao mesmo tempo que vem para o Brasil para putear, enchendo a cara e aprontando, ao mesmo tempo é um solitário e sonhador. Tem medo da água de bica, mas come e bebe o que houver de mais estranho no lugar. Fala alto, é um esporrento de primeira, mas se alguém se chegar direito, ele mostra logo que está mais para uma namoradinha nativa, do que para uma boneca translúcida e evanescente ao final de cada madrugada. Maria sabia. E virou freguesa de hotel. Não daquelas de album de fotografias que o ascensorista leva no apartamento. Mas sim das que frequentavam a praia em frente e as mesas ao ar livre dos restaurantes da cercanía. Era de lá que jogava os seus anzóis. E os peixes vinham. E da mistura do inglês, ou do francês arrevezados com o português, ajudados pelos gestos e pela encenação, saia sempre um lance. Mas ainda não era o que queria. Maria queria era casar... Com um gringo, é claro. E que a levasse bem para longe. Um dia aconteceu: - I love you! Nem jovem, nem velho. Já tinha durado os tres meses que o gringo tinha para fazer a consultoria contratada por uma multinacional. E o tal, nos últimos dias, cismou de lhe dar presentes, de dizer que a amava, e que ia voltar para busca-la. Entregou-lhe um o dinheiro da carteira, e disse que o esperasse. Maria ficou um nadíco chateada. Mas, perder o que? Ficou no mesmo apartamento de hotel, onde tinham morado os últimos dois meses, e esperou. Não por muito tempo. Maria de Stevenson mora hoje em Miami, de frente para o mar. O mar faz chuá, chuá, mas ela não está nem aí.
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