|
“Dane-se o McLuhan!” Foi o Rubem Fonseca que falou isto. Aliás, não foi nem isto. Foi mais para o “foda-se o McLuhan”. Foi mesmo, agora tenho a certeza! O que não tenho certeza é que isto tivesse alguma coisa a ver com o conto onde vi escrito. Sei lá. Não consigo entender a metafísica do Rubem Fonseca. Será que estava inserido no contexto? Houve uma época em que “inserido no contexto” estava inserido no contexto. “Alienado” também era legal, assim como “epistemologia”, “dicotomia”, e outras pérolas para se jogar no meio da roda. Já “burguês” tinha perdido a força. Foda-se... “Ô garçom!! Me traz outro chope!” Porra! Nunca consigo fazer com que o chope chegue na hora certa, sincronizada... Ou o anterior ainda não terminou, ou já terminou faz tempo e a goela já está seca, e o atazanado garçom nem se tocou... “Garçom, a puta da sua mãe, como é que vai?” “O senhor pediu alguma coisa?” “Chope” (seu viado, filho duma puta!) “Traz um chope, meia gola, e rápido! Traz mais um queijinho também!” E a porra da Suzana não chega! Até para gozar ela se atrasa! Precisa que eu fique meia bomba, meio isso-isso, e sacando quando é que ela já chegou no alto da ladeira, e vai descer desabalada. Às vezes, demora à bessa! Quem será que foi este McLuhan mesmo? Porque é que esta merda está me vindo à cabeça? – Definitivamente, não tem nada a ver com o contexto! Mc Cartney, Lúcia. Aí, sim! Muito melhor. Porra de chope que não chega! Quem é que falou Copacabana-me-engana? Porque as pessoas se atrasam, se atrasam sempre? Será que querem passar por mais importantes? Vá, eu nem estou com aquela pressa de que ela chegue! Já reparou que amante antiga é muito pior que mulher? E para mim, que nem mulher tenho mais! Duas moças se sentam à minha frente. Mesa destas de calçadão de praia, sabe? Daquelas com sombrinha. Vão se sentando e já sacando a redondeza. Nem olharam para a mesa. Já notou que homem quando senta, é olhando a mesa? Mulher, não! Só olha para a cadeira do lado para despejar a bolsa e a sacola de compras, e já está concentrada no que está em volta. Avaliando... Com certeza vão me olhar, e achar que estou numa vitrine, tal como todos os que estão em volta. Sou uma mercadoria exposta, e sujeita à depreciação... Porra, acho que eu devia pensar menos... Ando pensando demais, e isto só provoca confusão na cabeça... Uma das garotas se aproxima... “Tem fogo?” Será que quer alguma coisa comigo? “Tenho” (bem no meio das pernas, pra lhe deixar doidona logo mais à noite, gracinha!). “Obrigada”, e sorri... Será que quer que eu a convide para sentar? “De nada. Você é daqui?” Fudeu. Agora já puxei assunto. Não consigo manter a boca calada! Daqui a pouco, a Suzana chega, e arranjei um escarcéu gratuito. “Não, nós somos de Goiânia. E você?” “Vocês não querem se sentar?” Pergunta idiota. Elas já estão sentadas na outra mesa, e chamá-las provavelmente só vai aumentar a minha conta. Pensando bem, eu devia estar indo embora agora... “Cleidinha, vem pra cá!” Minha depressão chega ao auge. McLuhan? O que é que ele tem a ver com isto? -Ora, porra nenhuma! Chamei, está chamado. Mas e a Suzana, e se ela chegar? As duas se sentam. Não são tão meninas assim. Devem ter passado um pouquinho dos 30. “O que é que vocês estão fazendo aqui? Outra pergunta idiota. Queé que você quer que elas respondam? Que estão fazendo um cursinho da IBM? “Estamos fazendo um cursinho da IBM. Lá em Goiânia não tem, sabe?” Sabichão! O que é que o McLuhan falaria disto? Não vieram passear, não vieram visitar a tia, nem desceram de um disco voador e pousaram loiras e doiradas em Copacabana-me-engana. Vieram fazer a droga de um cursinho! “Ah, é?” – Dizer o quê, né? Que eu sou analista de sistemas? É melhor não falar nada mesmo. As duas não tem nada de caipiras e não vai dar para vender a imagem do geninho da informática... “E você? Qual é o seu nome?” A esta altura, eu já estava mais para codinome, mas... “Felipe, carioca, analista de sistemas, divorciado.” Ninguém perguntou a última parte, mas já é bom ir dando a ficha logo... “Nós também! Quero dizer, nós também somos analistas de sistema...” “Casadas?” É melhor ir logo delimitando o terreno. Afinal, a estratégia com as casadas é completamente diferente. É mais rápido. “Sim” e “Não” acontecem sem maiores preâmbulos. Ou não. Às vezes, é cantada para anos! “Não. Divorciadas também.” “Uai (podia ter dito logo!), e em Goiânia tem disto?” Ninguém riu. Parece que o pessoal lá é meio zeloso da terrinha... Sem problemas! “Desculpem”, continuei, “mas a imagem que tenho de lá é de uma terra conservadora...” As duas se olham e riem. Mais bandeira, nem pensar! Pior ainda, devem ser das dificultosas , das sabidonas, que criam o maior problema, daquelas que quando você vai, tem que com camisinha no corpo inteiro, escafandro, manja? Sem beijo na boca e tudo muito asséptico, tipo sexo em Nova Yorque... Droga! Mas quem foi mesmo o McLuhan? Fodam-se todas as mulheres liberadas e que pecam sem o menor sabor de pecado! Acho que sou eu que estou meio sem interesse, e muito mais preocupado com o quanto que elas estão me custando, do que com o quanto que estão me contando... Montado o retrato, eis que a visão das duas começa a parecer mais com um retrato tremido, mal tirado em uma Polaroid, com aquelas cores brega, sabe? Meto um xis na foto. Ao longe, uma mancha laranja se aproxima. Uma mancha vestindo um óculos escuros daqueles tipo “gatinho”. Só pode ser a Suzana. “Tchau, a minha namorada está chegando!” e saio, me escafedo. Que alguém, ao menos uma vez, que alguém pague a minha conta! E foda-se o McLuhan!
|