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-Antonio! O executivo vem atravessando a Rio Branco, no Rio de Janeiro, ali no cruzamento com a Ouvidor, e, subitamente, dá de cara com um outro, todo mundo apressadinho... - Antonio, como é que vai? - Eu? Os olhos vermelhos denunciam a preocupação, a falta de sono. - É, rapaz, você! Vem para cá, para este lado, porque o sinal já vai abrir. E dizendo isto, tira-o do meio do trânsito, arrastando-o para a calçada. -Eu? Bem, vou indo por aí, navegando dentre os meus problemas... - Soube que você largou a Dorotéia. Divorciou mesmo? Assumiu? Está separado? - É, me separei. Agora estou morando em Copacabana. Arranjei um conjugado meio ruinzinho, mas dá para morar... Os dois seguem caminhando, e terminam entrando num desses restaurantes “ao quilo” para almoçar. - Mas espera aí! Você está sozinho? Não está namorando ninguém? - O pior é que estou. E estou apaixonado... - E isto é motivo para estar macambúzio deste jeito, olhão vermelho? - Escuta, Júlio, nada é tão simples. Eu estou apaixonado, sinto-me premiado na loteria, mas mesmo assim... - Mas como! Você devia estar dando pulinhos pela Rio Branco, devia estar com um sorriso nesta cara safada, rapaz! Como é que é o nome dela? - Melissa, Andréia, Glória e Solange. - Hem? - Melissa, Andréia, Glória e Solange! - Hem? - Não vai querer que eu repita de novo, vai? Vê se não me goza, está bem? - Espera aí! Quem está de gozação é você! Quem é ela para ter este nomão todo? É alguma tataraneta do Orleans e Bragança? - Quem é que falou que ela tem este nome todo? - Mas... mas então você está com uma ou com quatro namoradas? - É claro que estou só com uma! Esse negócio de mais de uma é para você que não se estressa, que não troca nomes, que consegue ir a dez motéis por semana... - Olha, amigão, assim não vai adiantar! Conte esta estória desde o início, porque você não está dizendo coisa com coisa!
(Um grande suspiro do Antônio...) - Esta estória é tão complicada, que nem sei por onde começar... - Vai devagar, e me conta pelo começo! - Você já ouviu falar de Antares? Que nem Andrômeda, uma constelação deste tipo? - Já. E não estou entendendo nada... - Calma! Descobri que estamos sendo invadidos! - Definitivamente, é um estresse! Vamos imediatamente para um hospital psiquiátrico! Vamos descobrir que está mais maluco – Você, ou esta mulher que tem quatro nomes, ou as quatro mulheres que são uma só, ou o diabo que o carregue! - Por favor, Júlio, vê se não faz escândalo, porque já está todo mundo olhando para cá! De fato, no restaurante, as pessoas já começavam a olhar para a mesa dos dois, espantados, com Júlio, que já estava esbaforido, vermelho e descabelado! - Que é que há, ô cara! Você, com esta cara séria, não está dizendo coisa com coisa! - Calma, calma! Se você me deixar continuar, eu explico por que... - Grunff! Está bem! - Eu, numa noitadas destas, conheci a Melissa, mulher de seus trinta e poucos, ou vinte e muitos – não dá para saber... Cheirosa, bonita, simpática, etc, etc... Ela estava numa roda, com três amigas e alguns rapazes. Rodeia daqui, rodeia dali, e logo, logo eu já estava também na mesa, a seu lado. Sabe estes botecos que tem conjunto e dá para dançar? Pois é, dançamos, conversamos – aquela conversa doida de bar, saca? E, no final da noite, fomos para num motel. - Oba, está ficando bom! - Te aquieta, ô cara! O fato é que mesmo sendo a primeira vez, foi bom, muito bom, e como era sexta, e eu não tinha nada para fazer no sábado, o fato é que terminamos ficando juntos mesmo, e isto continuou pelo fim de semana, e no meio da semana seguinte, ela me levou para sair com a turma. Bem, a turma você já sabe qual, né? - Melissa, Andréia, Glória e Solange? - Melissa, Andréia, Glória e Solange... - E daí, o que é que isto tem a ver com você estar namorando as quatro? - É que uma – são as quatro! (Júlio faz uma careta, e quase que baba...) - O quê? - Se você fala com uma, pode ser qualquer uma, a qualquer momento. A resposta é a mesma, é a das quatro. Se você dorme com uma, você tem a impressão, e isto eu só descobri depois, que levou as quatro para a cama... - O quê? - Quatro vezes a energia, quatro vezes a exigência, quatro vezes o tempo, quatro vezes a delícia. Ás vezes, é sutil – a expressão da Melissa muda, e começa a parecer que tem o rosto da Andréia, da Glória, e assim vai indo, e parece a cada momento que você está com uma delas na cama. É sempre a Melissa, mas não é. - O quê? - Para que ficar repetindo “oquê”, “oquê”, “oquê”... Parece que está bobo! - O que é que você quer que eu fale? Está me contando uma estória destrambelhada, maluca! - Depois eu comecei a descobrir outras coisas... Quando discutia com a Melissa, o seu poder de argumentação era quatro vezes maior. Mudava de dialética, de tática, sei lá, de momento a momento, e sempre conseguindo me convencer, mesmo sem razão nenhuma. Mas ainda, descobri que uma sempre sabia o que as outras estavam fazendo, mesmo em condições em que seria impossível uma pessoa normal deduzir! Cada vez mais apaixonado passei, no entanto, a reparar muito bem no comportamento de todas, e notei, sem precisar de muita psicologia que as personalidades trocavam de corpo, sem mais aquela! Uma vez, tentei cantar a Glória, me aproveitando de uma distração da Melissa, mas aí que merda que deu! Vieram as quatro me esculhambar, quase que me comeram o fígado! E aí eu compreendi de vez! Compreendi que dormindo com a Melissa estava cormindo com todas, Entendi que usavam os corpos físicos meramente como acessório. Suas mentes navegavam por entre os corpos indistintamente! É claro que juntei as quatro, naquele mesmo boteco, e lhes disse que eu já sabia de tudo e perguntei então o que era aquilo e como é que podia acontecer... - E aí, conta! - Rapaz... foi assustador! Elas, todas as quatro, reviraram os olhos até ficar só o branco, saca? - E aí, e aí? - Subitamente, pareceram todas elas desorientadas, espantadas. Se entreolharam e foram todas embora! Eu, por mim, senti-me vitorioso! Tinha sacado tudo! Saí de lá e fui para minha casa dormir. No dia seguinte fui procurar a Melissa, para curtir a vitória. - E como é que ela reagiu? - Não reagiu! Nem me reconheceu. Disse que não sabia quem eu era, e coisa e tal, que a deixasse em paz, e me deixou desesperado. Por vários dias tentei falar com ela, mas nada consegui. Finalmente, ela me telefonou. Corri para lá. - E então, deu tudo certo? - Depende do que você chama de certo... Conversamos, e enquanto conversávamos descobri que estava com outra pessoa, que não tinha nada a ver com a Melissa que eu tinha namorado. Era outra pessoa! E então entendi tudo. Desta vez, entendi tudo mesmo... Sim, estou namorando a Melissa, Andréia, Glória e Solange. No momento, estou esperando que elas voltem de Antares...
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