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Nunca é tarde para amar!

   A mansão se erguia, tal como aquelas do sul dos Estados Unidos, com colunas na entrada e tudo o mais. Parecia até que a Guerra da Secessão nem tinha acontecido ainda. Soque a mansão não era lá, mas sim em um bairro tradicional de Goiânia.
   De qualquer forma, era daquelas mansões imensas, com dezoito quartos (não sei porque, estas mansões sempre tem dezoito quartos – nunca vinte, ou dezenove...), sete salas, biblioteca, e muitas, muitas dependências de empregados, Tinha até adega, mais por um espírito de imitação, do que por qualquer outra coisa, pois ninguém na região entendia bulhufas de vinho.
   Pois bem, nesta mansão morava um velho senhor, o seu Euclides, daqueles com saúde perfeita, rijo, lúcido, sabe? Daqueles que saíram do zero e criaram um império a sua volta, e de quem toda a família dependia. De compleição aparentemente frágil, era um homem dos seus metro e setenta, se muito. Mas nunca tinha visto um médico pela frente, e com ele não tinha destas frescuras de cooper, de malhação, de nada disto! O velo era forte de ruim mesmo!
   Do casamento com a falecida Da.Vivinha, tinham nascido quatro homens e três mulheres. Os seus filhos estavam iniciando a caminhada para a meia idade, já todos em volta dos quarenta anos. Os genros, como acontece nestas estruturas familiares, giravam também em volta do sogro, vivendo de suas sinecuras nas indústrias dominadas com mão de ferro pelo seu Euclides.
   Certa feita, o velho revolveu que estava na hora de dar uma parada, e viajou para os Estados Unidos. Foi coisa de um mês, mas mudou por completo a história da família.
   Quando voltou, mandou preparar um jantar, e chamou a família toda, exclusive os netos. Porque segundo ele “neto só é bom de dia – de noite, enche o saco!”. Deixou no entanto, a Vivinha, sua neta amada de 16 anos vir, porque, além de carinhosa com avô, Vivinha também era irônica e sabia botar os adultos em seu lugar.
   Às dezenove e trinta, todos já estavam na biblioteca, já que o velho prezava a pontualidade, e ninguém estava com disposição pessoal ou bancária para irritá-lo.
   Às dezenove e trinta e cinco em ponto, seu Euclides adentra à biblioteca, vestido, como sempre, com seu terno de risquinhas e colete.
   Um silêncio paciente aguarda enquanto o velho não começa. Uns e outros se entreolham: “o que será que o velho quer desta vez?”
   “Meus filhos!” Ele começa. “Como vocês sabem, eu saí para passear um pouco, após cinqüenta anos de trabalho ininterrupto. Fui para os Estados Unidos, lá para a Califórnia.
   Vocês todos sabem o quanto trabalhei estes anos todos, sempre pensando mais na família do que em mim. Tive sucesso atrás de sucesso, com a minha fortuna e meu prestígio crescendo sempre. Não fui político porque não quis, e porque não acredito nesta raça. Mas fui cortejado por todos eles, desejosos de meu auxílio para suas campanhas. Participei de todas as campanhas beneficentes que ocorreram aqui e em todo o estado. Escrevi manuais técnicos e livros de poemas. Podem não ter sido muito bons, mas fiz. Tive os automóveis que quis, tive Learjet, tive tudo que a vida material pode prover...
   Mas, nestes anos todos, senti sempre a falta de alguma coisa que me preenchesse, que desse um real significado em minha vida. Todos estes anos decorreram, apesar de meu amor pela Da.Vivinha, que todos reconhecem, sempre com uma sensação pessoal de vazio.
   No entanto, esta viagem mudou tudo! Esta viagem me mudou, inclusive como pessoa!”
   Os filhos e os genros se entreolham, com um ar meio que de tédio, de ligeira impaciência: “Será que o velho virou religioso? Só faltava esta!”
   Vivinha, sentada longe, e observando a todos, sabe, descobre, que o assunto ali é sério. Olha fixamente para o avô, tentando adivinhar a pedrada que vem dali.
   “Vovô, mas como é que foi isto, exatamente, como é que lhe mudou?”
   “Vivinha, você tenha a paciência! O seu avô está falando para seu pai e seus tios! Fique quieta, até eu terminar!”. E, virando-se para o resto da família, continuou:
   “Lá na Califórnia passei a maior parte do tempo em São Francisco, que foi onde tive a minha revelação!”
   “Revelação?” Um dos genros pergunta: “Mas como revelação? Revelação religiosa? Que revelação?”
   “Revelação de vida! Lá eu terminei jogando a minha bagagem fora, e refiz todo o meu guarda roupas!”
   “Guarda roupas?” Desta vez, é um filho que intervêm: “ mas o que é que isto tem a ver? Eu não estou entendendo nada!”
   “Meu filho, lá moram pessoas muito especiais, pessoas que receberam uma revelação em suas vidas, e que transformou completamente o seu futuro. Entendam, elas mudaram a sua opção...”
   Desta vez, Vivinha não se contem e grita, satisfeita: “Os gays!”
   “O vovô virou gay! O vovô virou gay! Oba!”
   Só faltou voar livro para todo o lado, porque a biblioteca virou um pandemônio! Todos falavam ao mesmo tempo. Uma gritaria só! As três filhas desmaiaram, parecendo coisa orquestrada. Os filhos olhavam raivosos para o pai, enquanto que os genros trocavam risadinhas...
   “Calados!” – do alto de seus quase um metro e setenta, seu Euclides, industrial e figura impoluta da sociedade goianense, impõe a sua autoridade. O silêncio, comandado pelo dono da bola, reina subitamente:
   “Calados, seus moleques! Não vim pedir autorização a ninguém daqui! Aqui quem manda ainda sou eu! Calados, ou eu os bota para fora desta casa, para fora de seus empregos, e para fora de suas belas contas bancárias!”
   Falou a voz da razão. Porque preconceito, todo mundo tem! Mas só até atingir a conta bancária, que é o que interessa de verdade. Assim, os filhos e genros, cônscios da importância da assinatura do chefe, do patriarca, do cacique, guru, manda-chuva, ficaram quietos, inda que mais avermelhados e suarentos do que o costume.
   “Agora sou uma Drag Queen! É a coisa mais maravilhosa do mundo! É um mundo alegre e desprovido de maldade, onde todo mundo já não tem mais nada a esconder! Posso dizer a vocês, meus filhos e minha netinha querida, que nunca fui tão feliz como agora!”
   Vivinha sai correndo, dá pulinhos, e se joga no colo do avô. Já sentado, o patriarca, sorri e olha ternamente para a neta.
   “Vovô, eu lhe adoro! Você é o máximo!”
   “Mas papai, é isto mesmo que você quer?”
   “Meu sogro, se é esta a sua opção, quem sou eu para criticá-lo!”
   “Safado, falso, ordinário, me aguarde!” pensou o velho, enquanto olhava o interesseiro...
   “Mas se fosse só para lhes comunicar a minha mudança de opção sexual, eu nem os teria chamado aqui...”
   Um dos filhos se levanta e se aproxima do velho:
   “Mas... mas então qual é o porquê desta reunião? Existe alguma coisa a mais?”
   “No que se refere a mim, não. Mas...”
   “Mas o que é que pode haver mais? O que é que o senhor quer?”
   “Bem... quero que vocês experimentem!”
   Um silêncio pânico de três segundos é seguido de uma gritaria histérica. Um barata voa dos grandes!
   “Velho bicha!”
   “Filho da puta!”
   “Eu sou é macho, sou espada!”
   “Dou porrada, sou homófobo!”
   Esqueci de dizer que os olhos do velho eram azuis. Assim, os seus olhos azuis passeavam tranqüilos pelo caos, enquanto esperava que os machões se acalmassem...
   “Ninguém é obrigado. Quem quiser, pode sair daqui, pode ir embora, sumir, que eu não estou nem aí...”
   “Mas...” continuou, “Quem sair pode se despedir do emprego, de sua conta bancária, da Mercedes, piscina, viagem à Europa... Quero ver quem é macho para tanto!”
   Pela primeira vez foi realizado um Gala Gay em Goiânia. Dizem que algum industrial importante patrocinou o evento.
   - Belíssimo, por sinal! O melhor hotel da cidade abriu suas portas, seus salões e sua moral para o incrível acontecimento, já que ninguém é de ferro, ainda mais o balancete mensal!
   Uma velha senhora de olhos azuis, com sete meninas saltitantes se dirige, sob a luz de flashes e das câmeras de televisão paa a entrada. Ninguém está aí para o que a tradicional sociedade goiana possa falar do assunto...

O-fino-dos-Contos02


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Nunca é tarde para amar

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