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Eivar-me de amor à vida? a esta vida?
I
- Porque tomaram da vida o que, um dia, ainda chamavam de pássaros e esconderam dos sonhos a sua maior fatia
- Porque contabilizaram os dias em pode e não pode e fizeram monumentos ao nada e riram e deram graças e recolheram os seus vastos umbigos às alcovas de algum vigésimo andar
- Porque ordenaram a todos que nada vissem porque na planície beberam os rios e as folhas em seus monstros de lata
- Porque sugaram as entranhas da terra e mataram os seus deuses todos
- Porque estamos nus e com frio não te posso mentir, meu filho em um poema qualquer, sem o fel sem o ódio de meus vulcões inclusos sem a dor completa, toda escriturada de meu peito sem sonhos, tão gasto e escalavrado
II
Nas tardes todas deste tempo lavado girado, girado nos relógios exatos em que marquei-me homem e poesia
Nas tardes todas busquei sempre um pássaro nem tão celeste, nem de tão acurado canto mas que não fosse de mentira ou de plástico recortado em tampas de margarina ou de saponáceos em promoção
Profeta, fui arauto em todas as portas em lábios, tetas, em índices planetários forneci o azimute e o necessário para astrólogos, videntes, contestadores
Nos buracos todas da cidade edema eu busquei o cheiro do mar barulho do mar (ausente em memórias caídas no sótão vário de tão roxa cidade) busquei no voo a gaivota enquanto águia - Luta e corpo de uma história só
E assim na manhã da vida pousei a minha espada: nomeei sagrados o fio, o feito e a fonte das águas
Na manhã da vida tornei-te pássaro meu filho, não de lata ou inventado mas, raso na madrugada, agudo e azulado em um ventre sangrado por meu falo tornei-te real!
III
Mago, fui mago por te fazer assim Um homem, uma mulher e um sonho alado que voou como voas agora:
- Horizonte de pássaros, filho meu ó aéreo destino dos ávidos sempre infindo e vertical!
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