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Ele sabia, ele sempre sabia. Desde menino, quando era capaz de saber exatamente o que o irmão mais velho queria aprontar, o que lhe dava meios e formas de se livrar, até o que a mãe andava pensando, o sofrimento dela com o pai lerdo e leso... Sabia do tempo de amanhã, sabia o resultado da loteria, sabia de tudo. Mas não falava nada, não dizia nada, não fazia nada... Loteria, nem pensar! Sabia que só iria estragar tudo, avacalhar com o ritmo de vida que queria ter. Porque como sabia, sabia que tudo que é material cansa, é ilusório. Aliás, tudo que é imaterial também cansava... - A única coisa que não cansa é amor de mãe, pensou o sabido, já em seus primeiros anos. Amor de mãe é um negócio que dá para curtir sempre, desde que seja um amor de verdade, sem ser aquela coisa opressora e choraminguenta, de mãe dominadora, chata... - Já amor de mulher é um negócio que enche o saco, pensou, logo depois de suas primeiras experiências. É bom enquanto você não conhece bem, não devorou ainda o prato principal. Depois, cansa. É que nem doce de leite – Só dá para comer aquele tantinho e, depois disso, o danado já enche o saco, arde o céu da boca. Assim, ia ele pela vida, evitando ladeiras, e já prevendo o tamanho da descida, lá do outro lado. A única coisa que não estava prestando nesta estória era a morte. Não que fosse ligado em coisas do além, um espiritualista, um transtornado. Transtornado? Que o destino o livrasse disso! Mas a morte o chateava. Não a sua morte, porque esta visão ainda não tinha tido, mas a morte dos outros. Aliás, a “Morte”, com “m” maiúsculo. Porque a Dona Morte era um ser como outro qualquer. Aliás, era uma multidão de seres, que andavam dentre os outros pelas ruas, sem mais aquela! Andavam só olhando... Aquela morte de velhinho que dá o último suspiro, de descanso, sei lá, mas que está mais para o alívio de que para outra coisa, não o incomodava. Mas o Serafim (era este o seu nome) ficava chateado mesmo era com aquelas Mortes insidiosas, malévolas, que andavam por aí buscando alguém para um desfecho trágico, um suicídio, um acidente de trânsito, coisa do tipo. A sofreguidão da Morte ambulante era coisa que o incomodava. Era estarrecedor o olhar da Morte, quando estava esfomeada. E, com os seus olhos injetados, a Morte ambulante sempre estava sôfrega, desesperada por sua próxima vítima. A Morte só perdia a cabeça quando encontrava os olhos do Serafim. Pois ele sabia de tudo, e a Morte se descabelava porque o pior de tudo era alguém saber de sua fraqueza, de seu desespero. - Se Deus existe, então ele criou a morte como alguma coisa independente de seu controle, e a soltou por aí, pensava o Serafim. Mas será este desespero da Morte a noção de que está perdendo terreno? Porque tanta fome? Será que tem uma cota para cumprir? Mas a coisa continuava, e Serafim terminou por se desligar, de se importar com tanta morte andando por aí. Isto, até descobrir que uma Morte andava rondando a sua casa... - Mas quem será? Puxa, não era nem preciso usar os seus dons para saber que a morte estava querendo a sua mãe! - Mamãe, não! Vem cá Dona Morte! - O que é? Perguntou a Dona Morte, encarnada numa moça como qualquer outra, sem nada que chamasse a atenção sobre si mesma. - O que é que você está fazendo aqui? - Você sabe... - Não sei não! Não sei de nada! Só sei que você está em local errado, pois aqui não há nada para ser levado! - Há sim... Há a sua mãe, de quem você gosta muito, mas que eu resolvi levar, e brevemente... - Mas como brevemente? Ela mal fez 50 anos, e tem a saúde perfeita! Mas que estória é esta? - Esta na hora dela, e pronto! Melhor sair de perto, porque senão levo você também! - Tem que haver alguma maneira de mudar isto! Não pode ser assim! - Eu sei que você tem me visto, e a todas as minhas formas, enquanto escolho a minha colheita. Jamais tentou se meter, e nem ia adiantar. Para que se meter agora? Vou levar a sua mãe, mas prometo que ela não vai sofrer nada. Vai ser uma destas paradas cardíacas, um aneurisma insuspeito, um suspiro de nada durante o sono, e que quando se vê, já se está do outro lado. Agora, se você ficar enchendo o saco, mudo tudo, e faço uma daquelas mortes horrorosas, de cobrir o corpo todo de chagas, de ficar feddendo, de ninguém conseguir chegar perto, e de gritar me chamando, para que eu a livre de tal sofrimento, quá, quá, quá! - Sua desgraçada! E Serafim atirou-se contra a Morte. E ela o recebeu de braços abertos: - Venha Serafim, que o seu tempo chegou! E, de posse de sua alma, foi-se embora, satisfeita por ter sido tão fácil engana-lo. Afinal de contas, o Serafim não podia saber de tudo, não é?
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