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O Macaco e a Onça

Não é que o macaco seja mau sujeito. Mas é irritado. Macaco não é bicho que aceite as coisas assim-assim, sem nenhum questionamento.
Nós estamos acostumados às palhaçadas que estão associadas a figura deste mamífero, à libertinagem ligada a seu comportamento, e a sua legendária esculhambação. Para todos nós, em suma, o macaco é um sujeito imoral, sacana, descomprometido e sempre pronto a aprontar.
Mas, como estava dizendo antes, o macaco, antes disto, é um tenso, um irritado, que normalmente tende a se aborrecer com coisas que os outros bichos deixam rolar, deixam prá lá. O macaco está mais para executivo estressado, daqueles que devem dinheiro paca na praça.
Pois você conhece aquela estória da “hora da onça beber água”?
Pois é. Na floresta onde o macaco morava, a capivara veio com a notícia, ainda de manhãzinha:
- Mudou tudo no regato! Chegou uma onça prá morar por aqui, e mandou avisar que das sete até as nove da manhã ninguém se chegue no regado, pois ela prende e arrebenta!
- O que?!?
Irritou-se logo o macaco:
- Que estória é esta? Aqui sempre foi democracia! Aqui nunca teve disto de horário, e de uns terem mais direito que os outros! Mas que porra! Puta que os pariu!
Estava irritadíssimo! A sua bunda (coisa horrível bunda de macaco, né? É toda vermelha e bojuda...) já estava rocha de tanto ódio!
- Mas é isto mesmo! continuou a capivara: Mandou aquele puxa-saco do urubú me avisar: É prá ninguém se achegar que ela apronta!
O macaco foi na sua maleta e apanhou logo uma Magnésia Bisurada por que a acidez já estava subindo na garganta.
- Tá bom, tá bom! Dona Capivara, já me deu a notícia, já me ferrou, e portanto já pode ir fazendo o seu caminho, porque o meu dia a senhora já conseguiu estragar!
- Escuta, seu Macaco! Só vim avisar! Quem pode manda, quem não pode, obedece...
Enquanto a capivara se mandava, toda rebolante, para contar as novas para o resto da bicharia, o macaco, solenemente, se retirou para o aconchego de seu galho, e lá ficou ruminando. Quer dizer, quem rumina é boi, que não está nesta estória. Ficou mesmo foi azedando, e quanto mais pensava no assunto, mais azedo ficava.
- Das sete às nove! Esta onça ficou é doida! Justo na hora em que as pessoas civilizadas acordam e vão se lavar! E quanto mais pensava, mais arretado ficava...
- Vagabunda, prostituta! Tá pensando o quê? Só por que tem força? Pois eu vou lá, vou dizer poucas e boas prá esta metida!
Macaco fala muito, mais ainda quando está sozinho. Mas prá tomar providências, a coisa é diferente. O dia foi passando, e a bicharia começou a dar por falta do macaco, que sempre estava por aqui e por ali, bisurando tudo, de tudo querendo saber e em tudo dando opinião.
Já lá prá tardinha, o macaco não tendo dado as caras, foram de bando para baixo da árvore, para ver se estava tudo bem.
- Onça filha-da-puta! Descarada! Desinfeliz! O macaco estava à toda, pulando de um galho para outro, hiperativo, enquanto o rosário de chingamentos rolava. A bicharia se quedou, abisboquiaberta lá embaixo, enquanto o símio fazia acrobacias de matar qualquer trapezista de inveja.
- Olha lá, dizia a cobra para a tartaruga, agora deu um mortal triplo! Olha! Tá descendo em parafuso!
E o macaco ia, descendo e subindo vertiginosamente pelos galhos, enquanto ia ajuntando mais e mais bicho. Pois afinal de contas, apesar de não ser levado a sério, era popular, e estava fazendo um barulhão danado.
Lá pelas tantas, o povaréu resolveu acalmar o bruto, e chamá-lo às falas:
- Ei, seu Macaco! Desce daí, e vem conversar! Olha a pressão alta!
- Desce! Desce! Desce!
Em uma floresta, não precisa ser só no Brasil, qualquer acontecimento vira logo esculhambação. Já tinha engraçadinho lá embaixo gritando:
- Tira! Tira! Tira!
Como se o macaco tivesse alguma coisa prá tirar...
Nem o pirú podia, pois - não sei se você sabe - pirú de macaco é a coisa mais ridícula, de tão pequeno que é...
O macaco terminou descendo, além de tudo porque estava esgotado, e porque até que não seria uma ruim sair para transar uma banana, ou uma minhoca.
Desceu, ouviu, argumentou, o povo dissuadiu, disse que a onça era mesmo brava - tinha bicho que já a conhecia de outras paragens, e tal e tal... O macaco terminou subindo num toquinho e fez o maior comício:
- Bichas e bichos de minha floresta! Nós não podemos aceitar a lei da selva! Isto aqui sempre foi democrático, todo mundo com os mesmos direitos! Exigimos a manutenção do status-quo!
Lá atrás, já tinha nêgo sacaneando:
- Porra nenhuma! Este macaco é que enrolava todo mundo, e terminava sempre fazendo o que queria! Agora chegou alguém mudando as regras, e ele perdeu o reinado...
Blá, blá, blá e tororó, e coisa e tal, e o macaco continuou com a arenga, até que a bicharia se cansou, e quando ele viu, só tinham duas formigas e uma centopéia assistindo.
Desconcertado, subitamente parou com o discurso, e vendo que não adiantava nada continuar, resolver jantar, e ,prá começar, papou, de cara, os tres ouvintes. Dali, foi para o seu bananal de preferência e se refastelou.
Como é muito difícil alguém continuar na bronca de barriga cheia, e tendo voltado para o seu galho, dormiu um sono como há muito tempo não dormia.
Dormiu a noite inteira...
Tem nêgo que só acorda puto. O macaco era um destes.
A coisa só melhora depois do banho, do brequifasti e da barreada matutina, que dá aquela clareza mental que todos conhecemos.
Pois não é que só no meio do caminho para o regato foi que o nosso amigo se tocou!!
- Puta-quiuspariiuuuu! Filha da puuuuta! vou ter que esperar até as nove para começar o dia! Não acredito!
Mas, como não tinha voltado ao regato desde que soube da estória da onça, resolveu ir até lá, ao menos para assuntar como é que estava o negócio. E foi se chegando...
Cada bicho tem seu cheiro. O da onça é especialmente forte, de maneira que mesmo com vento contra, o macaco antes de chegar no regato, já sabia que ela estava lá. Por outro lado, a sua presença já deveria estar sendo notada, pois o cherômetro da onça também era dos bons.
- Pois venha!
O macaco se assustou com aquela voz sibilante, que nem esperou que ele se apresentasse, ou sequer aparecesse, para o chamar.
Já tinha visto muita onça, mas de longe, que ele não era besta . Já conhecia os seus urros, mas nunca tinha ouvido a sua voz.
E que voz! Tava muito mais para voz de cobra. Nunca pensou que os felinos falassem daquele jeito...
Ele vinha se chegando por um lado do regato, enquanto que a onça estava no outro. O regato, no entanto, era daqueles mixurucos. No lugar em que estavam, não tinha nem dois metros de largura.
Se usasse chapéu, seguramente o macaco estaria com o mesmo na mão. Todo humilde, se apresentou para a rainha (- filha da puta!) da floresta.
- O senhor não ouviu falar que eu não quero ninguém por aqui no meu horário? Não recebeu, como os outros, o meu aviso?
Enquanto falou, a onça, no entanto, nem estava olhando para o apavorado macaco. Refastelada naquela areinha de beira de regato, estava de barriga para cima dando patadas no ar. Parecia brincar com algo inexistente. Em verdade, se não fosse aquele tamanhão todo, podia parecer até um gatinho, brincando com o nada.
O macaco estava quieto, e quieto ficou. Aliás já estava se perguntando como é que tinha sido tão idiota a ponto de ter criado aquela situação...
- Você é mudo, ó desprezível quadrúpede?
O ruim do macaco é que perde a cabeça atoa. A sua irritação empretece tudo, de maneira que foi logo respondendo:
- Nem mudo, nem desprezível, nem quadrúpede, sua besta!
- Estou mais para mandrúpede, ó felinozinho de merda!
Num incrível salto, a onça saiu de sua posição de costas para uma de ataque, com o corpo todo encolhido, e pronto para saltar! No entanto, a situação era tão absurda que ficou paralizada com os olhos fixos no símio. Quase de bom humor, e sem acreditar, perguntou:
- O que é que a figurinha difícil falou?
- Mandrúpede!
O macaco se tremia todo - o lado esquerdo de ódio, e o direito de terror mesmo...
A onça já tinha perdido todo o seu bom humor:
- Seu idiota! Estou falando do resto! Que irritação! Será que eu não posso tomar meu banhozinho de sol, sem que apareça um imbecilzinho para me atazanar? - Repete o que você falou, seu macaco filha da puta!
Era demais! A mãe não! O pobre do macaco, sem nem pensar no que estava fazendo, saltou de um pulo a distância que o separava da onça, e imediatamente se engalfinharam numa luta de morte. A coisa foi tão estranha, seu salto tão inesperado, que a onça não conseguiu reagir, e ele foi parar nas suas costas, mas de ponta-cabeça, ou seja, com a cara virada para o rabo dela.
Aí não tinha jeito, e ele teve mesmo é que se agarrar de qualquer maneira, por que se soltasse, ia virar pastel... Com a barulheira toda, quem ainda dormia, conformado em ter que esticar o seu sono, acordou, e a bicharada toda se ajuntou para ver a parada rolando.
- Acho que a onça ganha, garantia o jabuti.
- Não, o macaco agarrou ela de jeito! Retrucava o guará.
- Sei não... Nunca vi onça ruim de briga, comentava a cobra, enquanto olhava com olho comprido para um ratinho que também tinha vindo assistir a luta.
A onça, que nunca tinha sido cavalgada, saltava enfurecida, mas sem conseguir se livrar. Como o macaco tem quatro braços, em verdade, quando abraça, o faz duplamente, e naquele momento, o que a onça tinha ganho eram dois torniquetes, um entôrno do pescoço, e outro na virilha.
A bichana pulava e bufava, e quanto mais fazia, mais o macaco se ajeitava, arrochando sempre o aperto.
- Ai, que assim você me mata! Ai, que eu estou sufocando! A onça já começava a ver a coisa preta, engasgando e sufocanco, e começando a babar sangue.
- Pede arrego! Pede arrego! Promete que se manda daqui que eu lhe solto, propôs o macaco.
- Ai, ai, que eu faço! Eu vou embora, eu faço tudo o que você quiser!
O macaco soltou a onça, que de imediato se recompôs, e botou uns olhos vermelhos, vermelhos, cheios do maior ódio do mundo, em cima dele.
Mas, olhando em volta, viu a multidão de bicho tinha ali, e vendo-se desmoralizada, se enfiou na floresta, e nunca mais foi vista na redondeza.
Foi uma festa!
O macaco foi carregado pelos bichos em glória - Parecia coisa de Fórmula um, manja?
Foi homenageado, foi aclamado como o guardião da floresta. Teve gente que até levantou a hipótese de aclama-lo como rei dos animais!
Mas o tempo passa, e herói que é herói tem que ser aquela figura distante, que a gente só vê de quando em quando.
Tem que manter o mistério, a legenda.
Com o macaco não tinha nada disto. Ele era o que era, vivia no meio dos outros animais, sempre com as suas macaquices e irritações.
Continuava a falar muito, e besteira. Com o passar do tempo ninguém estranhava quando alguém dizia:
- Este macaco só tem papo. Não é de porra nenhuma...

 

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