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Tratado geral da mentira – Parte V

Das Balelas, Lorotas, Petas e Potocas

Veja bem:
Isto me lembra um amigo que dizia "veja bem" sempre, mas dizia assim:
-Fêxa bem! Para tudo ele mandava fechar bem. Dizia tanta besteira depois disto que era melhor você fexar mesmo!
Mas, vamos lá:
Veja bem!
- Acho que balela tem a ver com lorota. Potoca tem a ver com lorota também, mas é mais simples, menos elaborada.
- E peta é mentira de garoto que fez merda, e está querendo enrolar e dizer que não fez.
Peta tem a ver com gato e com padre, não sei porque...
Alguma merda que o Joãzinho fez que envolveu o gato e o pároco da cidade.
- Pároco é ótimo! Parece padre velho, né? Aqueles padres que viviam enchendo o saco do bispo e foram mandados para uma paróquia lá na puta que os pariu...
Mas o nosso pároco (não é meu nem seu, mas do exemplo, tá?) não era tão velho assim. Foi mandado prá lá porque era chato prá cacete, não tomava muito banho, e o bispo brigou com o prefeito da cidade, e quis sacaneá-lo.
Daí mandar esta merda de padre para a pobre da cidade que já tinha que aguentar o Joãozinho e a cambada normal de peraltas que infecta a vida de pacatos transeuntes do interior, onde a renda per capita é mínima, e a capacidade de proliferação, máxima.
Pois bem, já falamos do padre, e do Joãozinho. Do gato e da peta, nada.
Mas calma! Vamos chegar lá...
Pois estava o Joãozinho a contar uma peta no confessionário:
- Seu padre, eu pequei.
- Não tenho a menor dúvida!
- Como, se ainda não contei nada?
- Deixa prá lá... O que é que você fez?
- Eu não fiz nada!
- Mas como?
- Está vendo, o senhor também está acreditando!
- Eeehhh! Você veio aqui para se confessar...
- É!, mas é do que minha mãe disse que eu fiz, mas eu não fiz!
- Não fez o que, porra!
-Seu padre, o senhor está falando palavrão!
- Fala logo!
- Minha mãe tá dizendo que eu raptei o gato do padre!
- O gato, que gato?
Esclareça-se aqui que o pároco tinha um gato ao qual nutria grande apreço, já que o felino cidadão não se importava com a sua sujeira, e também não era adepto do aproxêgo, que nem cachorro gosta. O padre se sentia feliz com aquela presença rondando por ali, sem no entanto vir se roçar e se entrelaçar em suas pernas. Tem gato que faz, mas aquele felino não era adepto dessas viadagens.
- O meu gato?
- O seu é um cinzento, peludo, com um olho azul e outro amarelo, e com aquele cú estufado?
- Vê como fala do meu gato!
- Tá bem, os dois olhos eram azuis.
- Tô falando do cú!
- Ahhhh... é por isto que sua voz está meio cavernosa...
- Filho da puta!
- Padre, olha o palavrão!
- É que você me tira do sério...
- Sério foi o que aconteceu com o gato!
- Mas que gato? Ai, meu Deus, o meu gato! O que foi que você fez com ele?
- Nada, uai. Minha mãe é que está insistindo que fui eu.
- E o que é que sua mãe está dizendo?
- Já falei, ora!
- Fala de novo!
- Querem cem reais para entregar o gato de volta...
- Quem?
- Minha mãe diz que sou eu, uai.
- Mas é ou não é?
- Não, mas se o senhor me entregar 100 reais, o gato volta...

O vigário pagou e, quando chegou em casa, encontrou o gato são e salvo. Diga-se que o dito felino jamais tinha saido de lá, o que configurou a peta que Joãozinho contou. É claro que isto configuraria rapto também, o que não faz parte do nosso Tratado.
Aliás rapto não houve.
O que houve foi a origem da expressão "Conto do Vigário", ao contrário da origem afirmada por outras autoridades no ramo, dizendo umas que surgiu em Portugal, e outros no Brasil ainda Colonial.
O que acabei de dizer acima pode ser considerado como uma balela, lorota ou potoca.
Você entendeu tudo?
 

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Tratado Geral da Mentira
Introdução
Dos Tratantes
Classificação Geral
Das Razões de Estado
Das Balelas, Lorotas, Petas e Potocas
Dos Enganos, Tretas e das Burlas
Das Tretas, ainda...
Tretas e Correlatos
(continuação)

A Perigosa Baby Ruby
Planos de John and Mary
Baby Boom
O Petardo Cubano
O Dedo e a Fortaleza
O Dedo Atômico


O suicida
Os Abduzidos
Psicanalise de João e Maria
Tipo Antigo
Querida Pafuncia
Aprontações Domésticas