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Van Gogh, Gauguin e Arles

O que de fato aconteceu no período entre 23 de outubro e 23 de dezembro de 1888, tempo em que Gauguin e van Gogh conviveram na famosa Casa Amarela em Arles? Quais foram as influências mútuas, e de fato como foi o desfecho que levou Gauguin a abandonar precipitadamente Arles exatos dois meses depois que lá chegou?
O problema do fato histórico é que o mesmo é contado por uma ou mais testemunhas, sendo o seu relato oficial o resultante, em primeiro lugar, da média destas versões, e, em segundo, de uma análise posterior, já desintoxicada do fato próximo. Naturalmente existem ainda as distorções provocadas para atender à alguma necessidade do poder temporal, mas assumimos que este último fator não deve ter interferido no que nos interessa. A mais de cem anos do ocorrido, quem se interessa por este trágico encontro de dois gênios, tem que se basear em relatos e suposições para a análise do terremoto que foi o encontro destas duas artes..

A Ponte Triquetaille, out 88, ost 73,5 x 92,5 cm

Fig 1 - A Ponte Trinquetaile, out/1888

Esta análise é apoiada, naturalmente, em evidência documental, e em probabilidades. Por exemplo, é altamente improvável que van Gogh não tenha, de fato, cortado a orelha. O excesso de testemunhos e a existência inclusive do "Auto-Retrato com Orelha Ligada e Cachimbo", de Janeiro de 1889, torna a sua possibilidade em "certeza".
No entanto, os fatos ocorridos na noite de 23 de Dezembro de 1889, não possuem a mesma "taxa de certeza", digamos assim, do relatado anteriormente.
Poderia van Gogh que adorava Gauguin, e do qual não conhecemos nenhuma outra ocorrência de agressão (a não ser contra si mesmo), em todos os relatos a respeito do pintor holandês, repentinamente ser vítima de um impulso assassino contra o artista que ele tinha como mentor e aliadoem seus projetos de uma comunidade de artistas?

No relato de Gauguin a respeito do incidente, o mesmo diz que " Meu olhar neste momento deve  ter sido muito poderoso, pois ele parou e, baixando a cabeça, retomou correndo o caminho de casa". Será que um olhar seria capaz de demover um louco de seus objetivos assassinos? - Uma figura transtornada persegue a sua vítima com uma navalha aberta, mas quando a mesma se vira, sai correndo apavorada com o seu olhar magnético...Difícil, não? Ainda mais quando se sabe que Gauguin era um pretensioso, e bastante capaz de se lembrar dos fatos de acordo com sua própria ótica! Isto sem se esquecer que Gauguin escreveu a respeito mais de dez anos depois (1902 ou 1903, em "Antes e Depois"), já depois das distorções racionalizantes quanto ao verdadeiramente ocorrido.
Até porque Gauguin se refere a um evento anterior, em que alegadamente van Gogh lhe teria arremessado ao rosto um copo de absinto, e que cita como tendo ocorrido no mesmo dia em que van Gogh se mutilou (22 de Dezembro), e que outros como Ronald de Leeum, em seus comentários em "As cartas de Vincent van Gogh" dizem que tal evento ocorreu antes de 17 ou 18 de Dezembro, alguns dias antes portanto, e que entre os dois fatos os pintores, como bons amigos, foram inclusive visitar uma galeria..
Como todo fato histórico, há que se examinar, mesmo que brevemente, os antecedentes e as motivações do encontro entre os dois artistas.

Um trecho da carta escrita por van Gogh para Gauguin em 3 de outubro é esclarecedor:"Eu tenho que lhe contar que mesmo enquanto trabalho, penso continuamente no plano de montarmos um ateliê no qual eu e você sejamos residentes permanentes, mas onde estejamos, eu e você, dispostos a torná-lo em um abrigo e refúgio, para amigos, nos tempos em que eles achem que a luta contra a adversidade esteja sendo uma carga forte demais".
Gauguin, por outro lado, escrevia em uma carta para Emile Schuffenecher:

Les Alyscamps - Nov 88

Figura 2 - Les Alycamps nov/1888

"Theo van Gogh vendeu algumas das minhas peças de cerâmica por trezentos francos. Assim, vou para Arles no final do mês e devo demorar-me bastante tempo, uma vez que o principal motivo de minha permanência lá é trabalhar sem ter preocupações financeiras até estar lançado. Daqui para a frente, Theo passar-me-á a pagar uma modesta mesada".

Estes trechos de correspondência denotam de maneira brutal a distância entre os objetivos dos dois artistas - Um van Gogh espiritualista, visionário, e um Gauguin imediatista, muito mais preocupado com a sua sobrevivência diária.
Além de suas diferenças no enfoque da vida, ambos estavam distantes no "como" e no "porque" da pintura.

Apesar do apego intelectivo de van Gogh às máximas do simbolismo, do cloisonismo (do qual Gauguin era um dos próceres, e de cuja técnica se aproximava com facilidade), a sua natureza interior levava-o a uma aproximação confluente com o motivo, levando-o a pintar muito mais com sua intuição do que com as premissas e teorias do simbolismo. Van Gogh, apesar de seus propósitos intelectivos, inevitavelmente era arrastado pela presença - para ele - avassaladora do motivo que estava a sua frente, sendo a sua pintura o resultado espasmódico de sua interação (às vezes desesperada) com o que se deparava à frente de seu cavalete.

Les Alyscamps, Folhas de Outono a Cair, nov88,73x92

Figura 2 - Les Alycamps nov/1888

Este distanciamento entre o seu pensamento e o seu fazer, e a necessidade preemente de impor a sua visão racional sobre o seu lado instintivo e assustador, provavelmente foi um dos motores que o levaram tanto a insistir na vinda de Gauguin - Gauguin o salvador, o homem que iria enquadra-lo.
Prepotente, dominador, desde cedo Gauguin apropriou-se da casa, da economia doméstica e do labor artístico de van Gogh.

Com sua chegada, sente-se na pintura de van Gogh uma tentativa de torção de seu modo de criação, que era muito mais no local, e veja-se aqui,  local não só fisicamente, mas

com suas implicações de presença, de integração, e que passa a ser (a tentar ser) mais racional, mais afastado do real (do local), e dentro das maneiras de composição e do "como pintar" simbolista, cloisonista. Muda temporariamente o seu enquadramento, e quase que abandona a pintura "au plein air", trocada pela racionalidade da pintura no estúdio.

Em vez das pinceladas curtas e quase a êsmo, buscando o efeito através de massas de tinta, do resultado acidental, e com uma alta texturização das superfícies, por um lado, e com os limites (linhas) entre os objetos construídos aleatoriamente, van Gogh tenta, instado, quase obrigado por seu ídolo, voltar-se para uma construção racional, com uma delimitação prévia entre os elementos construtivos de sua composição, com uma utilização de cor chapada, e até, como já dissemos, com a mudança de seu ponto de vista em relação ao motivo, que muda, de central, para lateral, como se pode ver muito claramente nas diferenças entre o trabalho (fig. 6) que fez antes da chegada de Gauguin no cemitério de Arles ("Les Alyscamps"), os que fez durante o início de sua estadia (figs 2 e 3), e os seus trabalhos realizados já ao final de novembro, quando as diferenças filosóficas e pessoais entre os dois já se faziam patentes, e o van Gogh pintor desistia de tentar acompanhar a teoria e prática de seu mestre Gauguin. Restavam as tentativas desesperadas de seu intelecto repressor de absorver as técnicas do tutor racional e seguro, paradigma do que gostaria de ser...
O trabalho "A Ponte Trinquetaille" ( fig 1), realizada sob a influência do Simbolismo, é quase uma obra irreconhecível de van Gogh, dada a diminuição de contrastes, do tratamento escorrido que dá às superfícies, principalmente da escada e das paredes, e do retilíneo de suas linhas. A única concessão que faz a si mesmo é na pintura dos trechos do céu, que mantém as características curtas e empastadas de sua pincelada.

O Semeador, Arles, 1888

O Semeador - fig. 4

Rcordação do Jardim do Éden

Recordações do Jardim do Éden - fig. 5

Impressiona também as diferenças estilísticas entre "Recordação do Jardim do Éden", feito sob as influências de Gauguin (mesmo que com suas pinceladas nervosas e longe de uma desejada uniformidade nas cores delimitadas pelos limites cloisonistas), e o trabalho "O Semeador", que tem todas as características de um van Gogh clássico.
No entanto suas forças interiores são indomáveis, e em menos de um mês, já retoma as características básicas de seu estilo, rejeita o cloisonismo de Gauguin (a delimitação por linhas dos elementos constitutivos da composição), e retoma o seu pintar apaixonado.
Neste ponto, onde pontos de vista irreconciliáveis já eram patentes, e já era claro que em termos de vida, de filosofia e de pintura os dois homens viviam em diferentes universos, van Gogh e Gauguin poderiam ter chegado a um acerto que permitisse, em clima civilizado, com bom ou mau humor, não importa, a partida do último para seus próprios destinos.
Não foi assim. E não porque van Gogh não pudesse aceitar a perda de algo com um significado não maior do que meramente a convivência com Gauguin. Impressiona também as diferenças estilísticas entre "Recordação do Jardim do Éden", feito sob as influências de Gauguin (mesmo que com suas pinceladas nervosas e longe de uma desejada uniformidade nas cores delimitadas pelos limites cloisonistas), e o trabalho "O Semeador", que tem todas as características de um van Gogh clássico.
No entanto suas forças interiores são indomáveis, e em menos de um mês, já retoma as características básicas de seu estilo, rejeita o cloisonismo de Gauguin (a delimitação por linhas dos elementos constitutivos da composição), e retoma o seu pintar apaixonado.
Neste ponto, onde pontos de vista irreconciliáveis já eram patentes, e já era claro que em termos de vida, de filosofia e de pintura os dois homens viviam em diferentes universos, van Gogh e Gauguin poderiam ter chegado a um acerto que permitisse, em clima civilizado, com bom ou mau humor, não importa, a partida do último para seus próprios destinos.
Não foi assim. E não porque van Gogh não pudesse aceitar a perda de algo com um significado não maior do que meramente a convivência com Gauguin.
Tudo o mais estava em jogo. Era esta a sua maior, e vimos que a última tentativa de adaptar o seu mundo à sua ideologia. E tal como num relacionamento que finda, van Gogh assume o comportamento do amante rejeitado que tudo faz, dentre ameaças, súplicas e promessas para evitar a perda do objeto idolatrado. Van Gogh objetifica Gauguin. Torna-o no totem de todos os seus anseios em relação a um mundo interno, nunca entendido por ele.
Do lado de Gauguin, o que é visto é um Van Gogh desequilibrado, compartilhando a casa amarela, e com um comportamento obsessivo em relação à ele. O que é visto é um homem desvairado,conflitado entre o desejo de ser querido por ele, e portanto disposto a engolir o seu portentoso ego e suas teorias quanto à pintura, contra a sua própria e incontrolável energia que extravasava qualquer tentativa de controle, mesmo provinda dele mesmo.
Provavelmente,   os sentimentos de Gauguin foram um misto de medo e aversão, condição piorada pelas sucessivas vezes em que acordou com van Gogh lhe velando ao leito. Ao final de infindáveis discussões, Gauguin sai para dar uma volta, e se depara com um van Gogh seguindo-o, como para que evitar que o primeiro fugisse.
Na praça do entrevero, o que deve ter acontecido foi uma discussão, com Gauguin dizendo "poucas e boas" para van Gogh, que com seu ego massacrado, retorna à Casa Amarela, e amputa a orelha, marco do início da loucura, e da época mais brilhante de sua pintura.
Interna-se. E os tempos de alucinação e desvario sucedem-se a períodos de consciência, produção artística, e sofrimento. Até que, já fora do hospício, talvez num momento de sanidade derradeira, desiste, e comete o suicídio.

Bibliografia:
Walther, Ingo - Van Gogh, Obra Completa de Pintura
Gauguin, Paul - Antes e Depois
The Letters of Vincent van Gogh - organizado por Ronald de Leeuw
Boudaille, Georges - Gauguin


Textos de Pintura

Pequenos fatos da Arte
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